Jonas e a Baleia
Todo dia, tudo sempre igual.
Acorda. Faz a barba. Lava o rosto. Olha o espelho e não sorri.
Burocrático café com leite. Fatia fina de queijo branco. Pão de centeio. Sem manteiga. Abre a fresta da janela para a casa respirar. Caminha vinte minutos até o local de trabalho. Guarda-chuva a tiracolo mesmo no clima ameno da pacata cidade.
Chave na porta. Acende a luz. Pitorescos relampejos de um novo lugar, de uma nova vida ? Nada disso. Recolhe a correspondência e dispõe os periódicos simetricamente na mesa principal da sala. Relógio na parede. Oito horas. A biblioteca municipal está pronta para receber os moradores do local.
Jonas conhece cada canto daquele espaço, não seu por direito, mas que tem sido há mais de duas décadas, a sua intermitente mola propulsora. Já pensou em trocar de vida várias vezes. Outra cidade, mudar de nome, desviar as vontades. Falta-lhe força.
Nem o prazer de ler os romances disponíveis nas prateleiras, sempre limpas e disponíveis. Contenta-se conhecendo literariamente seus visitantes constantes.
Dona Jurema, admiradora ferrenha de Sidney Sheldon, comparece regularmente para ativar anseios e desmanchar-se em sonhos íntimos nos lençóis suados das heroínas. O mesmo pode dizer do velho amigo Mário, fã de carteirinha de Sherlock Holmes, que não se conforma com a estupidez proposital de Watson, mas não deixa de reler as elementares façanhas do detetive inglês.
Jorginho, o do skate, devora gibis e mangás que envolvam esportes juvenis. A professora de geometria, Srta. Cecília, é leitora assídua dos sonetos de Shakespeare e dos versos de Drummond, Adélia e Vinícius.
Jonas, sempre prestativo, concilia o atendimento formal a todos sem prestar atenção a si mesmo, aos seus gostos, submisso às prediletas páginas dos outros. Se perguntassem qual seu gênero literário preferido, não saberia dizer.
A vida continuaria assim, inerte entre as paredes da biblioteca municipal da sossegada cidade, se não houvesse notado o constante sumiço dentro do ambiente de trabalho. E não tem sido de jornais, revistas ou livros.
Reparou que os leitores estavam desaparecendo.
Evaporando da biblioteca e dos lares.
A população estava apavorada.
Jonas decide, em ato insólito, juntar as peças do estranho quebra-cabeça.
Sexta-feira, após o expediente normal, fecha a biblioteca.
Consulta as fichas de retirada de livro dos leitores. Recolhe os títulos das prateleiras. Separa-os em cima da grande mesa central. Sob a luz tênue fluorescente, as letras garrafais das capas cruzam de mistério qualquer solução.
Quase desistindo, observa que os volumes estão mais grossos. Folhas inseridas, branquinhas, contrastando com as originais usadas.
Pega primeiramente o livro O Outro Lado da Meia Noite, best-seller de Sidney Sheldon. Nas novas páginas, nota que uma terceira personagem feminina, de nome Jurema, se junta à trama da paixão erótica e desenfreada de Larry Douglas. Incrédulo na descoberta, Jonas larga o livro e folheia um dos clássicos de Arthur Conan Doyle. Depara com Mario ajudando o herói a resolver o segredo por trás do Ritual Musgrave.
Atônito, visualiza Jorginho pintando de laranja, púrpura e verde abacate a Praça do Palácio Imperial em Tóquio, em manobras radicais na capa da revista em quadrinhos. Em outro livro, encanta-se com sonetos inéditos de Neruda em declaração escancarada de amor a certa professorinha Cecília e suas curvilíneas geometrias.
Fica com a nuca arrepiada perante os suspiros da angustiante Catherine pelo novo amor que sente por Geraldo Queiroz, o Geraldinho, no Morro dos Ventos Uivantes, romance da poetisa Emily Brontë.
Desequilibra-se em James Joyce desconstruindo a vida de Leopold Bloom e seu amigo inseparável, Ernesto, o da quitanda, em um Ulisses irreconhecível pelas terras da Irlanda.
Jonas solta os livros como brasa viva e sob a aura da dualidade, deseja desaparecer do inferno descoberto. Corre para a porta. Apaga a luz. Decide ir embora, para nunca mais voltar. Pára por um instante. Sente-se desafiado a resgatar seus amigos do cativeiro literário.
Desobediente aos desígnios dos céus, sobe na mesa e mergulha em direção às prateleiras. Tropeça sem gravidade nas crateras frias das Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, veste pelo avesso o manto da invisibilidade de Harry Potter, relembra postumamente das memórias machadianas em Brás Cubas, experimenta a suavidade das tênues listras laranja e preta dos tigres de Borges.
Desvencilha-se de palavras proparoxítonas, parágrafos sem nexo, personagens descabidos, capítulos insossos, tramas mirabolantes e versos diversos.
Um forte clarão invade o espaço, cegando-o por instantes.
É dia.
Novembro úmido e chuvoso.
O balanço inconfundível do mar.
O que ele vê ?
Casas da ilha de Nantucket (ou seria de Nínive?) desaparecendo ao longe. A imensidão do oceano aos olhos como castigo da alma. As conversas e os copos da taberna são submergidos por ondas gigantes de aflição, trabalho e indefinição.
Marinheiros a bordo do Pequod na espera do maior mamífero do planeta, sem dinheiro no bolso, sem o calor da família no final de semana, sem garantia de sonhos leves.
Até breve, terra firme, se for possível.
Intrépidos visitantes do mundo das águas.
Enquanto aguardam a presa, procuram nas marolas o elixir que os afaste da melancolia, dos erros do passado e da vastidão dos dias longos e vazios.
Jonas encara a perspectiva de encontrar Moby Dick em definitivo com mórbida euforia. Terá a chance de salvá-la do cruel Capitão Acab. Ou não salvá-la.
Que o tridente de Poseidon vergue o destino de todos !
O espanto está em desejar, pela primeira vez, acompanhar e participar como protagonista, ao desespero da morte, manchando de sangue alheio os dogmas da linha do novo horizonte.
Quando o capitão Acab depara com Jonas no convés e pergunta quem ele é, a resposta sai naturalmente:
- Chamai-me Ismael.
autor: Paulo Mauá
1º Lugar - Concurso Literário de Contos, Cronicas e Poesias
ALPAS-M21 - Porto Alegre - RS
abril 2011


